Adão e Caim; Tal Pai, Tal Filho 

Adão e Caim; Tal Pai, Tal Filho 

Yoel Halevi No Comments

Em muitos casos nós encontramos nas histórias da Bíblia Hebraica o uso repetitivo de temas para ilustrar as ideias e mensagens das histórias. Esses temas são usados em um esquema que o autor usa para mover a história adiante e comentar diferentes ideias. Em Gênesis 4:1-16, nós encontramos a história da luta entre Caim e Abel, que levou à morte de Abel e à expulsão de Caim. Quando comparando a história com o ato de pecado e punição de Adão e Eva em Gênesis 2:4-3:24, nós encontramos pontos análogos, que poderiam indicar dependência entre as histórias. 

As Similaridades 

Pontos de contato são expressos como segue:

A história em Gênesis 4 é localizada imediatamente após a história de Adão e Eva           e a abre; a conexão ligando a história atual com a história anterior. A história de Caim é uma continuação direta da história de Adão e Eva. 

Ambas são histórias de pecado. 

É, contudo, importante notar que existe uma diferença entre as duas histórias. Uma história é sobre pecado contra Deus, enquanto a segunda é sobre pecado contra outra pessoa. É também importante notar que a razão para cada pecado é diferente em cada história. A história do pecado de Adão e Eva é levada por uma cobra, enquanto a história de Caim e Abel é levada por uma razão não clara ou não explicada para a inveja. Embora nós sejamos informados que o sacrifício de Caim não foi aceito, nós nunca somos informados por quê. 

Após o pecado existe um diálogo entre Deus e o pecador, onde Deus usa a forma de questão “Onde está você?”. A questão é retórica e é entendida como um mecanismo desenhado para iniciar uma conversa com uma figura humana e o permite se defender contra a acusação.

No diálogo nós encontramos uma tentativa de se evadir da responsabilidade pela pessoa e a pessoa tentando transferir a responsabilidade para outros. Adão culpa Eva e Caim nega sua responsabilidade pela guarda de seu irmão. Em ambos os casos a punição é similar: Deus bane o pecador de seu lugar e a terra é amaldiçoada por causa do pecado. A partida de Caim de diante de Deus é similar àquela de Adão, mas difere no que Caim foi banido e sai amaldiçoado e se torna um proscrito.

Ambas as punições seguem a lei do Talião, onde geralmente em ambas as histórias de pecado a punição é proporcional ao ato. O pecado de Adão é relacionado ao solo e ele foi expelido dele e, com Caim, a terra toma o sangue de Abel. A terra aparece no contexto de esconder o sangue/corpo de Abel e, assim, ele teve que ficar longe dela. 

É comum, como Zakovitz tem demonstrado, ter uma conexão entre histórias através da Bíblia Hebraica. Assim, nós podemos ter, entre duas histórias existentes, uma conexão linguística através do uso de palavras chave. No caso das maldições em Gênesis nós encontramos a questão “Onde está você?”.

Esses pontos mostram a conexão conceitual e linguística entre as histórias. Pareceria, baseado em ferramentas linguísticas usadas pelo escritor, que o formato da história de Caim é baseado na história anterior de Adão, que foi perguntado “Onde está você?” e, de fato, é uma continuação direta de ambos, cronologicamente e, em termos de atos humanos deteriorando-se, enquanto nós avançamos na história da humanidade. 

As Diferenças

É importante, contudo, apontar também algumas dificuldades em comparar as histórias. O  argumento de Caim “todos os que me encontrarem vão me matar” não se adéqua à realidade de uma segunda geração de humanidade. A questão deve ser perguntada: Quem pode ser o vingador do sangue de Abel derramado por Caim? Se apenas Caim e Abel eram nascidos naquele tempo, nenhuma outra pessoa poderia tomar vingança. Pode ser argumentado que Caim estava falando sobre o futuro, quando as pessoas se multiplicariam e então ele estaria em perigo. Outra possibilidade é que a história está aqui para argumentar contra feudos de sangue, que eram prevalentes entre as várias tribos de Israel.

O autor da narrativa cria um anacronismo para expressar sua oposição a esta prática utilizando o primeiro ato de assassinato e vingança e apresentando uma oposição ao ato dos vingadores de sangue desde um estágio inicial da humanidade, desde a antiguidade. Em outras palavras, na mensagem enviada não importa se ou não havia mais pessoas, o ponto é a objeção ao ato de vingança. 

Na história de Caim existem muitas diferenças chave no fluxo da narrativa, deixando pontos de interrogação sobre o comportamento dos personagens. 

As Lacunas na História

Além das diferenças acima, leitores da Bíblia Hebraica são deixados com muitas lacunas na história. As lacunas que podem ser encontradas são as seguintes:

O nascimento de Caim é destacado, enquanto Abel é mencionado de passagem. Em adição, uma explicação do nome de Caim é dada, enquanto que o nome de Abel não tem explicação atada na história do nascimento. Apenas após ele ser assassinado nós temos uma dica à ideia de como a raiz Hebraica hbl  é usada para indicar nulidade.

Qual era a diferença entre os sacrifícios de Caim e Abel? O texto distingue o tipo de sacrifício e enfatiza a natureza do sacrifício de Abel, sem especificar a natureza (nem o tipo) do sacrifício de Caim. Muitos comentaristas têm tentado explicar por que o sacrifício de Caim foi rejeitado, mas o narrador deliberadamente deixa este detalhe de fora, como parte do mecanismo de obscuridade usado na história.

No versículo 8, Caim se volta para Abel, mas o diálogo não é entregue    e os personagens são repentinamente transferidos para o campo. O Pentateuco Samaritano coloca um diálogo entre os dois, mas isso é provavelmente uma harmonização, comum no texto Samaritano. 

A despeito da severidade do assassinato, muito pouco espaço é dado ao ato em si. Alguém assumiria que o ato deveria ser muito mais destacado, mas, uma vez mais, o narrador está focando a atenção do leitor à mensagem principal, e não aos detalhes. 

Deus dá a Caim um sinal para protegê-lo, mas o tipo da marca não é mencionado. 

Várias tentativas têm sido feitas nas fontes Midráshicas para preencher as lacunas:

A natureza do sacrifício de Caim é explicada argumentando que foi um sacrifício menor, ou mesmo um inaceitável. O diálogo que tomou lugar entre Caim e Abel no campo era sobre o casamento de suas irmãs e foi a fonte da disputa. Outros argumentam que o diálogo foi uma luta sobre direitos de pastagem ou o direito de Abel e Caim de usar lã. Detalhes da luta são também dados descrevendo que Abel superou Caim e Caim tentou matá-lo em diferentes maneiras antes que ele descobrisse como uma pessoa morre. Essa explicação é usada para também explicar a pluralidade da palavra “sangue” usada no Hebraico em 4:10. Estas compilações de lacunas mudam o personagem de Caim de um pecador para a imagem deu uma pessoa sob ataque, e ela não  mais pinta Caim como um pecador, mas como uma vítima. Em adição, esta seção adicionada ao texto no Pentateuco Samaritano, aumenta a presença de Abel  na história, adicionando palavras ao texto e balançando o aparecimento dos personagens e assim distrai o leitor de Caim, que é o centro original da história. 

O fenômeno de lacuna na história é explicado pela ideia que o autor não pode e não deseja reportar todas as ações em detalhes, mas destacar os pontos importantes à mensagem que ele está tentando transmitir. Não importa por que o sacrifício de Caim foi rejeitado, mas que isso levou ao assassinato. Abel não fala nada porque o objetivo é introduzir o personagem principal, Caim, que acaba falando com Deus e a crítica de assassinato. A forma da apresentação dos personagens é motivada por desejar sublinhar Caim e o ato de assassinato. Como resultado, muitas mensagens são enviadas: crítica da vingança, pensamentos sobre liberdade de escolha e deterioração humana.

As Mensagens

Para entender o que está realmente sendo feito no texto, o leitor deve procurar por pistas colocadas nas palavras do texto. Existem muitas palavras que guiam a história de Caim e Abel e sublinham algumas das mensagens na história. Palavras como: irmão, terra e morto são centrais. Parece que as palavras irmão e morto são usadas para destacar a gravidade do ato de Caim. Usando essas palavras em conjunção uma com a outra, a discussão se move de apenas assassinato para assassinato de uma pessoa amada. Parece que o texto está tentando enfatizar a proximidade entre os irmãos como uma ilustração da irmandade entre humanos e critica as práticas violentas. O assassinato de qualquer ser humano é assassinato na família, porque eles vieram de uma única fonte – Adão. Destacar a terra como um símbolo, associa o pecado de assassinato com a força destrutiva da maldição colocada sobre o homem após o pecado no jardim. A palavra “terra”, então, serve como uma ligação para a história anterior, enquanto enfatizando solo e terra. 

Assim, o leitor é forçado a associar as duas histórias uma com a outra e vê o problema, não apenas com pecado, mas também com comportamento humano e natureza. O homem foi criado à imagem de Deus, mas o abandono às leis de Deus traz o homem a um ponto onde o homem não tem respeito por seu companheiro humano. A falta de respeito a um ser que é igual a você faz o leitor se perguntar se o homem pode ser voltar para Deus quando ele é inapto a respeitar seu companheiro humano. Contudo, essas histórias são também seguidas pelo homem se juntando na torre de Babel para agir em uma maneira que se rebela contra Deus, deixando um aviso que o objetivo é o respeito que leva a uma cultura temente a Deus e não apenas a humanidade junta como um grupo, mas um grupo que se lembra de onde eles vieram e a Quem eles devem suas vidas. 

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